domingo, 13 de março de 2011

Inlutodo

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Que não se prenda em mim o desejo de lutar:
Voe livre em palavras, atos e olhares.
Pois examino as ideias que tenho e não gosto
Com o pudor de uma cafetina desmiolada
Que explora a puta, mas dá comida e casa.

Sua existência se mantém. Ideia que se vende
Por algumas palavras de além.
Perco, por ela, banhos
ônibus
equilíbrios (em tropeços)
e sonos. (mas não os sonhos)
Faz-me refletir, as vezes me muda o pensar

Depois de um tempo, tempo, tem-po.
Continuo enfrentando o que considero mal com os ares de um secundogênito periférico
Porém por meios diferentes.

Luto contra a lata:
Brado a todo detalhe novas palavras vis e violentas!
Mas se puxar a corda com demasiada inconsequência,
o tiro sai sem direção.

O lutador muda. (até o luto).
A luta, não.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Para as vítimas inocentes das ocupações favelísticas

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ele diz para
não para
dispara
paradise.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Eufrosina

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Grita o homem as dores do parto,
chorando existência desde o nascimento;
Antecipa o seu comple-tormento
Vivendo um contínuo assassinato.

Louco, perde-se em ambições de momento:
Não percebe o estado putrefato
Dos desejos iludidos, de fato,
Paranóia de lembrar o esquecimento.

Depara-se, então, a absurdidade
Da condição humana em que vivia,
Extremado em individualidade.

Pensou, revoltado, o que faria
Se no outro vivesse a liberdade:
Encontrou o sentido da alegria.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A existência enclausurada de Segismundo

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Re-lendo La Vida es Sueño, do Calderon de la Barca, me pus a refletir o monólogo de Segismundo, logo na primeira cena da peça (que aqui podemos ler e assistir a uma ótima performance de Dan Stulbach, o Tom Hanks brasileiro). Só me fez ter a certeza de acreditar que, se fomos feitos por alguma divindade, e ela nos imprimiu algum propósito na alma, no coração, na mente e no espírito, constituindo assim uma essência universal humana (no caso, pecadora)... não somos livres.

Sigismundo se compara a uma ave, a uma fera, a um peixe e a um riacho. Levanta a questão de uma liberdade relativa, ou seja, levando em conta que alguns seres a possuem mais que outros. Ele não percebe, devido, talvez, a sua crença em Deus Cristão, que é a sua própria capacidade de escolha que lhe dá a liberdade que tanto procura. Não tem a amplitude dos céus, da mata ou das águas, mas ainda assim, pode escolher ser o que quiser, dentro de suas limitações. Aí, Segismundo, está a sua liberdade plena, humana. Pois, não sendo criados por nada (como uma tesoura ou qualquer outro objeto com alguma razão de existir), somos trans-criados por nós mesmos.

É evidente, porém, que tal liberdade não é e nem pode ser absoluta. Um ser humano não pode ser nada além de um ser humano. Porém, nossa vida não é pré-estabelecida por contingências instintivas de uma essência biológicas, como uma ave, fera ou peixe, nem por determinações geológicas, como um rio. Não, Segismundo. Nossa capacidade de refletir e de escolher nos diferencia de tudo isso, e, estando nela a liberdade, a buscamos, transformando cada escolha em um aspecto da formação da nossa transmutável e humana essência.

Porém, essa "essência", adquirida em vida, nos faz agarrar a certas escolhas que muitas vezes distanciam-se da busca de uma maior liberdade individual. Tais liberdades nós suprimimos para bem viver em meio social (visto que não somos Tarzans, bons-selvagens individualistas). A negação de tais liberdades de escolher por si só o que ser e o que estar, de maneira fluida, leva-nos a uma integração complexa e misteriosa formada por princípios (que, por não sabermos exatamente suas origens, muitas vezes atribuimos a ele alguma divindade, que pode ser Deus, ou o ser que VEJA alguns tipos de ciência...). Creio que aí está grande parte de uma angústia que podemos sentir com intensa voracidade: a distância entre a vontade passional, a maior delas, de ser livre e a prudência de manter-nos ligado a convenções que a nossa própria existencia nos faz criar com nos pares.

Então, Segismundo, qual vai ser? Abraçará sua liberdade humana, limitada em suas escolhas, ou se segurará à crença de que é pecador e inferior, vendo nos pássaros uma liberdade que você não pode ter e nunca terá? A escolha cabe a você. E toda a responsabilidade sobre suas consequências também.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

a criança que aprendeu a voar

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Você é uma folha d'árvore
do campo de santana
que se desprende e voa

roçando a central do brasil
flutua livre
até as mãos de uma criança
do Morro da Previdência

essa criança segura a folha
carinhosamente
intensos olhos fixados
(fadados ao desfecho)
e guarda-a junto ao bombar
de seu sangue

e essa criança
sou eu.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Favelas, Estado, crise e vidas.

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Pretendo, a partir deste texto, expor algumas opiniões, a luz dos meus pequenos conhecimentos histórico-sociológicos, sobre o contexto de ocupação das favelas da Zona Norte do Rio. Não pretendo ser presunçoso e achar que estou dando alguma receita de bolo para resolver os problemas cariocas, mas apenas quis sintetizar aqui o que penso, e talvez levantar questionamentos aos meus leitores.

1. A favela é, historicamente, um alvo da coerção por parte do poder público. Desde suas primeiras formações, no começo do século XX, o fato de ocuparem terrenos públicos sem pagar imposto levou a vários enfrentamentos entre essas pessoas e forças de repressão. Suas origens são diversas: o processo do êxodo rural e a remoção de populações nas regiões que interessam ao Estado, principalmente da Zona Portuária, Centro e Zona Sul.

2. As favelas tornam-se objetos do tráfico internacional de drogas, de acordo com especialistas, a partir de 1985. Como eram regiões esquecidas (ou combatidas) pelo Estado, essas facções ganharam certo apoio da população a partir do provimento de serviços que o Estado não fazia questão de se ocupar, como compra de medicamentos, empréstimo de dinheiro... com isso, a população foi sendo dominada por outra força repressiva, que também espalhava o medo, junto com dedicações paternalistas - os traficantes armados até os dentes.

3. Existe, na história da formação das forças coercitivas do Estado, portanto, uma ideia comum de que favelado é um ser inferior, que não merece respeito, passível de ter seus direitos reduzidos a nada pelo fato de viverem no mesmo espaço que o inimigo. A partir disso, formam-se milhares de estereótipos que infringem diretamente artigos da constituição, contra pessoas que são vítimas do tráfico e vivem em medo. O racismo é uma delas.

4. Eu tenho, para mim, que um Estado Democrático não pode se fazer das mesmas armas que os bandidos que ele pretende combater. Costumo criticar o imediatismo das pessoas que acham que deveria matar mesmo, meter bala em traficante, invadir as casas e torturar os habitantes das favelas para conseguir informações. Eu, sinceramente, não acho que seja bem assim. Além de ser contra combater barbárie com barbárie (visto que o Estado deve ser o protetor da soberania popular), não existe "pausa" nos Direitos Humanos. Suspendê-los por um tempo pode levar a precedentes para o abuso de forças que dominam aparatos de violência.

5. Com isso não estou defendendo um laissez-faire do Estado (que já o fez bastante), e sim o respeito aos direitos das pessoas que lá moram. A ocupação tem de ser feita com inteligência E vigilância SIM da população (isso inclui os meios de comunicação, apesar do "disserviço", né BOPE?). A ocupação militar é, infelizmente, necessária. A tortura, os roubos e as humilhações não. E isso não é apenas, como pinta a mídia, questão de corrupção individual. Está, sim, relacionada à formação histórica da Polícia Militar do Rio de Janeiro.

6. A ocupação militar por si só não resolverá a questão da violência no Rio de Janeiro. A raiz do problema é a miséria da população, que não dispõe de serviços básicos e nem de paz para sobreviver. Uma solução que não foi levantada em meios públicos, mas que já foi projeto (negado) para o Governo do Estado na década de 90, é a integração da favela, por parte do Estado, à malha urbana tradicional, aliado à ocupação do Estado dessas áreas. O fim da partição da cidade. Pra mim, a presença do Estado é a POTENCIALIDADE de liberdade para essa população, mas não é garantia - visto, como eu já disse, a sua formação. Para isso se concretizar, o Estado tem que respeitar as liberdades individuais de tais populações.

7. Uma outra possível solução é a formação de novas associações de moradores, politizadas porém não-partidárias. O importante, mais do que alianças políticas, é o bem-estar dessa população. A inclusão dos intelectuais acadêmicos nesse meio pode dar uma nova utilidade à academia, além de sentar em seus gabinetes escrevendo artigos para seus pares e babando ovo de seus superiores.

8. Como disse José Murilo de Carvalho em uma entrevista, essa população de favelas foi, também historicamente, isolada do processo político. Essas pessoas não vêem o voto como um mecanismo de transformação, a não ser a curto prazo por via paternalista. Talvez a partir de um movimento direto sobre uma mudança de condicionamento cultural, que levaria anos, poderíamos eleger lideranças que dão mais atenção às necessidades de sua população do que a prestígio esportivo internacional.

Enfim, acho que isso é tudo. Desculpem pelo texto imenso, tentei ainda ser sintético. São opiniões e projetos, talvez horizontes possíveis.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

We all want to be young (but what kind of youth?)

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Antes de ler o resto do post, "ganhe" 10 minutos da sua vida assistindo o vídeo abaixo:

 

We All Want to Be Young (leg) from box1824 on Vimeo.

 

Eu achei o vídeo de muita qualidade, gostaria de adicionar algumas perspectivas sobre as informações e análises feitas na obra.

Ao contrário da geração dos anos 60, 70 e parte dos 80, a nossa não pensa em mudar o mundo, efetivamente. Já comentei em outro post a misantropia de parte dessa população, que se preocupa mais com animais e discursos vazios de ambientalismos do que com seres humanos propriamente ditos - e, como eu disse, não que lutar por isso seja ruim, mas a não integração com a luta por uma vida melhor é, no mínimo, abstenção. Talvez o vídeo mostre bem: os que têm de 18 a 24 anos chegaram a um patamar em que podem se acomodar, fechando os olhos para as mazelas do mundo. De fato, creio que isso seja um reflexo do ambiente no qual esses jovens de hoje viveram sua infância, ou seja, os anos 90: explosão de individualismo cultural, na carroagem histórica liderada pelo neoliberalismo, levou a uma descrença geral no outro.

Não podemos esquecer que o avanço da internet, em sua totalidade, é para poucos. Aposto que a grande maioria dos leitores deste meu blog, que possivelmente se identificaram com o vídeo (como eu), passam pelo menos 4 horas por dia na frente de uma tela de computador, enquanto a grande maioria não se encontra em tal situação de acesso a altas tecnologias ou independência econômica. Ou seja, o vídeo trata, especificamente, de uma juventude multi-cultural de classe média, e eu, sinceramente, não sei a que ponto isso pode ser expandido para outros setores desta e de outras sociedades e culturas no globo.

Realmente, a publicidade ajudou a "matar" nossos "grandes heróis" de overdose. Enquanto os heróis da década de 60 e 70 eram guerrilheiros, revolucionários, buscavam mudanças, os de hoje são vampiros que brilham no sol, bruxos, elfos, e é neles que nossa juventude se reflete: em heróis domados, domesticados, que não criam grande "arruaça" à ordem vigente. E é dessa maneira que os mais velhos nos influenciam: limitando nossos pontos de atuação.

Enfim, relacionada aos seus predecessores, a nossa juventude é reacionária e humanisticamente alienada. Existem muitos avanços no campo das liberdades pessoais que poderiam ser conquistados: a discussão sobre a questão do aborto, do casamento homossexual, do estado laico, desenvolver mais a tolerância multi-cultural (onde o filme já aponta conquistas), valorização da educação e da saúde públicas... Enfim, não é uma juventude de buscar a prática libertária, e sim de usufruir das vitórias das outras gerações e voltar-se para o próprio umbigo, de maneira EXTREMAMENTE instantânea, em contradição com as grandes conexões que a internet nos permite fazer.