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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Diferença entre "gosto" e "opinião".

Posted in , , , , by Bruno Marconi da Costa | Edit
De vez em quando me pego pensando sobre a questão do gosto de cada um: como existem gostos tão diferentes e como as pessoas cismam em tentar usar argumentos para justificá-los. Eu mesmo já caí e caio constantemente nessa situação (http://brunomarconiblog.blogspot.com/2008/12/o-porqu-de-sentenced-ser-minha-banda.html) que, na verdade, não sei se é errada ou não. Pretendo chegar a alguma conclusão ao final deste texto.

Não tenho conhecimentos aprofundados em psicologia para afirmar qualquer coisa sobre como o gosto vem a nós, ou como nós vamos ao gosto. Imagino eu que seja algo que guardamos inconscientemente na memória talvez na infância, essa época obscura de nossa vida, onde não sabemos exatamente o que nos influencia ou não. O que acontece é que esse gosto é obtido através da experiência individual, do que você absorve e sente durante uma série de eventos e fenômenos que acabamos por durante toda nossa existência. Não creio que seja preciso dar argumentos sobre os seus gostos, sejam eles musicais, de literatura, de pintura, programa de televisão ou de escola de cinema.

As opiniões, por outro lado, devem ser cuidadosamente escolhidas e raciocinadas. Podemos gostar muito da pintura de um artista, porém não compartilhar da mesma opinião e ponto de vista que aquele próprio artista mostra em sua obra. A opinião deve ser racional, pois é o que vamos defender no andar da vida e será sempre pedida pelas pessoas à sua volta. Já o gosto, não. É algo pessoal, mesmo que influenciado, sempre, por critérios externos.

Opinião e gosto se tocam e se transformam no contato, óbvio, mas é preciso diferenciar os dois claramente. Você pode gostar de 50 Cent e não concordar com espancamento de mulheres ou o sexismo, por exemplo. Creio que essa racionalização dos gostos se dá devido ao grande cientificismo da sociedade atualmente: tudo tem que ser explicado, argumentado, se não você está ERRADO, sendo que certo e errado não são entidades que existem previamente à própria sociedade.

Por isso, se você quiser gostar de funk, rap, emo, metal, rock'n roll, romantismo, renascimento, Big Brother, Faustão, filmes cult ou não, não tem necessidade de se explicar para ninguém. Só tome cuidado ao tomar a opinião dos criadores de tais objetos, pois essas opiniões compartilhadas sim, você tem a maior responsabilidade e vai responder por elas no futuro.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Dentro do ônibus...

Posted in , , by Bruno Marconi da Costa | Edit

Eu cometi uma besteira há um tempo atrás e acabei preso por sete anos. Hoje, estou em condicional. Me arrependo do que fiz, não deveria ter puxado o gatilho até saber o que acontecia, mas agora já aconteceu e eu pensava que Deus havia feito isso comigo para me castigar por causa de algum pecado que cometi.

Esse erro me atormenta até agora, pois não basta meu psicológico estar afetado: a sociedade não me aceita. Ninguém quer ter em sua pequena empresa um ex-presidiário. No começo desse mês mesmo fui aceito em uma loja de ferragens. Por três dias:

- Ulisses, o senhor não passou no teste. Terei que despedir você.

Não sabia da existência de nenhum teste. Logo perguntei:

- Senhor Luiz, o senhor sabe que o que está fazendo é crime, não?

- Crime por quê? Só porque estou despedindo você?

Relutei por uns instantes. Escolhia com cautela as próximas palavras, mas resolvi ser direto.

- O senhor sabe que sou ex-presidiário, não sabe?

- Sim, vi no computador.

- E é por isso que está me despedindo, correto?

- Não, não é por isso... o senhor não passou no teste...

- Pode falar a verdade, senhor Luiz. O senhor me pagou, não o farei mal.

Naquele momento, meu ex-patrão relutou também, mas escolheu, também, por ser sincero, como eu:

- Sim, foi por causa disso. Não posso colocar em risco minha empresa e os indivíduos que nela trabalham.

Desde então venho entrando em ônibus para pedir dinheiro para pagar meu aluguel - atrasado em quatro meses - e comida para meus filhos. Vou à Igreja todo domingo.

Um dia, em um desses pedidos dentro do ônibus, dois homens me deram, cada um, dois reais e um deles me deu um planfeto. Escrito estava o nome de uma Igreja, que agora não lembro. Não era a que eu participava, mas dei atenção para o que os homens falaram:

- Acredite em Deus. Ele é fiel a você, ele vai te dar dinheiro e saúde! Acredite no sangue de Jesus, pois ele tem poder. Acredite e Deus te dará sucesso, pois Ele é o único que pode dar ou tirar alguma coisa dos homens!

Eu realmente acreditava naquilo, até o momento que um rapaz - que já havia me dado algum dinheiro também -, provavelmente da metade da minha idade, se levantou e falou, baixinho para mim:

- Não... não acredite só em Deus. Acredite primeiro em você. Você é capaz de superar essa situação. O que está no passado não pode ser mudado, mas você pode mudar o presente para melhorar o futuro. E só você pode fazer isso na sua vida, não Deus. Ele não é fiel, quem é fiel é você! Acredite em si mesmo, nas suas escolhas, na sua capacidade de entender o mundo, e tudo vai melhorar.

Ele desceu do ônibus. E eu rasguei o panfleto.




[Sinto que o rapaz deveria ter sido eu. Esse homem realmente existiu, ele estava no ônibus que eu estava nessa quarta-feira, e me fez pensar. A história dele me tocou, e foda-se se você vai pensar "ah, mas é claro que ele está mentindo!". Era, no mínimo, verossímil.
Quem dera as coisas fossem assim... Mas não são: eu levantaria, falaria com o cara algo desse tipo, tentaria colocar o destino dele nas mãos dele mesmo e seria crucificado, simbolicamente, e com o perdão do trocadilho, por todas as pessoas daquele ônibus, quiçá do próprio ex-presidiário.
Ele não rasgaria o panfleto.
As pessoas precisam de um consolo. É o medo da liberdade. A angústia de perceber que a culpa de tudo que se escolheu e que não deu certo reside somente em si mesmo.
Mesmo assim, sinto que deixei passar nas minhas mãos uma oportunidade de pelo menos tentar abrir os olhos de alguém.]
terça-feira, 1 de abril de 2008

Vamos falar de política?

Posted in , , , by Bruno Marconi da Costa | Edit
Introdução

Tolo é aquele que diz que "Religião e política não se discute". Tudo é discutível, contanto que as partes da discussão sejam razoáveis e racionais a ponto de entender quando seu argumento é colocado por terra. Percebe-se certa intolerância política nos debates ideológicos travados nos meios virtuais e no próprio meio estudantil. Ninguém quer ceder.

Argumentos toscos são utilizados quando eu cito que sou socialista: "Ah, mas o socialismo nunca vai acontecer", "cara, se enxerga, o socialismo não deu certo", "que coisa ultrapassada e hipócrita!"... não se aprofundam à uma argumentação plausível e baseada em críticas aos conceitos diretos da minha posição política.

Há pouco tempo me entreguei a uma reflexão sobre a diferenciação de discussão política para a discussão sobre a corrupção. De fato, estão inteiramente entrelaçadas as duas, mas tratam de matérias totalmente diferentes. Uma coisa é discutir a idéia daquele determinado político ou daquela instituição, a outra é saber a idoneidade desse indíviduo ou dessa corporação.

A discussão de idéias e a difusão delas é a que leva à um desenvolvimento da democracia. Basear-se somente em quanto o candidato é ladrão ou não sempre pode ser levado à manipulações e interesses facilmente construídos.

Claro, a discussão sobre a corrupção é MUITO necessária, e deve ser MUITO combatida, porém a democracia não é baseada nisso, como a mídia sensacionalista e elitista de nosso país cisma em tentar frizar.

Abro aqui nesse blog um espaço livre para discussão de política, contanto que com argumentos plausíveis e desenvolvidos.

No próximo post vou falar sobre a participação e percepção popular na política do Brasil, a idéia de que o "povo não sabe votar" e o desenvolvimento da democracia.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Devaneios Urbanos

Posted in , , by Bruno Marconi da Costa | Edit
O silêncio da cidade. No Centro, ando pelas ruas apertadas de gente, a passos de pingüim, em direção à Praça XV. De fato, a Cidade não está vazia, mas em minha mente é como se estivesse. Nenhum rosto dali é familiar. Pra mim, são todos pessoas quaisquer, que se sumissem dali não fariam diferença alguma.

Porém, são todos indivíduos, todos com suas vidas, seus sofrimentos. Andam, como eu, no meio da multidão. Andam, como bois, no meio do pasto, a procura da melhor comida, a procura do melhor emprego, a procura da melhor saída. Não tem saída. Eu não tenho saída também, visto que eu não faria falta também na vida de ninguém dali.

O silêncio da cidade. Os carros passam, mas já não os ouço, porque se tornaram o background de tudo que faço. As buzinas entram por um ouvido e saem pelo outro. Talvez se fosse para o campo todas as buzinas e freadas continuariam ecoando na minha mente até eu me acostumar com os grilos rurais.

Por um momento reparo um mendigo, um qualquer, sentado embaixo de uma marquise. Calado, chama atenção naquele pandemonio multi-étnico que é o Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Mas não chama tanta atenção assim. Olho para ele, sinto certa pena, uma pena humanista de perceber que existem milhares a minha volta que, como eu, estão bem melhores que eles por terem, no mínimo, roupas novas e cabelos limpos. Penso que deveria ajudar mas sigo meu caminho. Assim como as centenas que seguem o caminho comigo. Ele, definitivamente, não tem saída.

Esse mendigo não é o único. Vejo pelo menos uns quinze no caminho. Percebo três. E não faço nada. Não tenho muito o que fazer. Eles são mais um background da cidade que, assim como as freadas, as buzinas, as pessoas sem face e minha indiferença perante isso tudo, já fazem parte deste ambiente tão cinza e asfixiante.

De fato, o silêncio da cidade, além de ensurdecedor, nos ofusca.