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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Clausura

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Uma clausura própria, e por escolha. Escolha por necessidade de arrumar as coisas e entender que diabos aconteceu. É assim que eu me sinto, preso entre as quatro paredes da minha existência as vezes tão tola a ponto de cultivar sentimentos como o medo ou o amor.

Sofro de uma prisão nauseante de incapacidade. É como se a cada dia levassem as mais importantes características do meu ser para dentro de um mar das contingências destruidoras de sonhos, usando como armas a rotina do dia-a-dia. Colocam sobre nossa mente que precisamos dançar conforme a música, mas o ritmo é em si uma tranca para um sorriso matinal.

Se for um amor ou medo quaisquer, tanto faz, no final. De uma maneira efêmera, meus sentimentos se tornam fortes para, de um lado, me decepcionar - como é o caso do amor - e, do outro, superar - o medo. Meu maior amor eu ainda não encontrei, e meu maior medo é me tornar apático. Apático a ponto de não querer mais me livrar dessa prisão, dessa solitude, que eu mesmo construi ao meu redor. A ponto de não abrir os olhos e viver uma vida medíocre.

É preciso buscar a transcendência, sempre. É preciso libertar-se, a cada dia, a cada minuto, das grades que constroem e que nós construímos para nós mesmos. E a cada libertação, novos grilhões, pois temos que ter responsabilidade sobre nossos atos e escolhas. E é aí que os sentimentos se diferem: o verdadeiro amor não é aquele que cria medo ao objeto amado ou por ele em si, e o verdadeiro medo é relacionado ao amor que você tem a certos aspectos da sua vida - seja uma causa, seja um afeto. Os dois se unem pela palavra prudência.

E talvez seja por essa prudência que me tranco em paredes ontológicas. Não quero sufocar a mim mesmo vivendo livremente e conhecendo o mundo como uma abelha descobre o que acontece quando perde seu ferrão. Preparo-me, então disputo o mundo. Destruo as fronteiras, como um casulo e como um desbravador. Ser alguém novo, o tempo todo. Essa é a nossa condição como seres livres.
segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Anacronia

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Chama-se a isso, se bem me lembro, a irreversibilidade do tempo.
Jean-Paul Sartre (A Náusea)

Revirando sentimentos enquanto o sol se põe. Sentimentos que nunca senti, na verdade, e que vêm com memórias. Pensamentos utópicos e inúteis de "o que poderia ter sido?" a "foi como tinha de ser". Não. Não foi como tinha de ser. Talvez um erro meu, talvez uma insegurança dela, mas as coisas nem sempre são como tinham de ser. Elas simplesmente acontecem, e temos que lidar com as conseqüências.

Esse sentimento me deixa sem chão. É extremamente estranho sentir-se apaixonado por memórias de algo que não chegou a ser uma paixão em si. Isso só me faz pensar que as lembranças estão sempre relacionadas ao que pensamos e sentimos hoje. Mas é estranho também o sorriso dela estar tão bem pintado e colorido em minha mente, quase como um Monet. Os olhos expressivos também são importantes, fractando-se a cada sorriso.

Mas isso não é nada pragmático. Como assim, se apaixonar por uma memória? Por um sentimento anacrônico? Pior, um sentimento que pode ser também crônico. Sinto como se não pudesse mais viver sem ele, mas sei que provavelmente amanhã acordarei e nem lembrarei do que estou sentindo no momento.

Tudo que eu queria agora era voltar no tempo e reviver o que acontecera, talvez mais intensamente, com o que sinto agora. Não é propriamente um arrependimento, só uma maneira diferente de ver o que aconteceu. Sei, claro, que é impossível, e isso revira meu estômago e mente de uma maneira inexplicável e que nunca senti antes, desta maneira.

O que eu realmente sei é que eu gostaria que ela tivesse me amado. Gostaria que eu fosse a última imagem em sua mente antes de dormir e a primeira depois de acordar, naquela época. Hoje já não sei. Pensava que minha paz se encontrava em minha solitude, e nesse exato momento ela está abalada.

Agora o Sol já está posto e incontáveis estrelas se põem no céu. Com o Sol, se foi a anacronia? Não sei. Só vendo o sorriso dela, hoje, meus sentimentos se decedirão: sincronizar a paixão ou deixá-la na memória. Eis a questão.
domingo, 28 de setembro de 2008

Saudade

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Por ela sinto a saudade de toda a humanidade. Em minha mente, seu sorriso esplandece por noites incontáveis as quais a chuva substitui o sono e a inquietação substitui o desmaio diário.

Enquanto as gotas no telhado salpicam, voam, são guiadas pelo vento para os meus olhos, eu lembro dos dela e esmoeço. Toda grandeza é insignificante sem o aconchego de seu colo, no qual descansava minhas mais profundas alegrias e desesperos.

Já ouvi uma vez que a saudade é uma permissão concentida que damos a nós mesmos para sentir tristeza. Acrescento: essa pequena tristeza que sinto é o que me faz humano, é o que me aproxima do mundo e de mim mesmo. O pensamento flui como uma folha suave que cai de uma árvore e é levada pelo vento até repousar em um solo-cama fértil.

Eu sei que posso levantar, deixar de pensar nela, abrir um livro, tomar um conhaque. Não quero. Um sentimento de vazio de vez em quando nos faz bem: faz perceber que nem tudo está certo e nem tudo nos completa. Nos tira da inércia. Hoje é contemplação e amanhã pode ser ação ou até esquecimento, mas nunca se mantém só na observação da falta que ela me faz.

Essa falta me domina algumas noites. Em outras, tenho que viver. O melhor momento para refletir sobre a vida é no leito, pois penso tudo que errei e dou desculpas esfarrapadas para tais erros, que nem sempre são realmente erros, mas preciso de uma direção lógica para tudo que acontece comigo. O que é inútil. É muita pretenção tentar entender tudo. Principalmente a saudade...

Ah, essa saudade... pode acabar hoje, no momento em que eu cair no sono. Será que ela vai visitar meus sonhos? Ou será que amanhã estarei preocupado com outras coisas? Não importa. O momento é sublime, triste, belo e completo em si só. Mas eu não sou. Me falta algo. Me falta ela.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Amor em Devir

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Olá,

Vi você parada outro dia apoiada em uma pilastra e aquela história toda de o tempo parar, que a gente vê nos mais clichês textos de amor, aconteceu.

Apesar de eu ter te visto duas, quem sabe três vezes, nenhuma delas foi tão marcante quanto a ultima. Simples como passar a caneta no papel; complicado como colocar uma idéia nele. Você estava ali, sozinha, esperando alguma pessoa ou algum sinal, alguma ligação no celular ou algum abrigo. Ou, quem sabe, algum sinal no celular para receber alguma ligação com alguma pessoa te oferecendo algum abrigo.

Mas o fato é que você estava ali e eu passei. Passei como quem passa, simplesmente. Como quem duvida, como quem está mais preocupado com o futuro do que com o presente. Mais preocupado com o lugar que eu ia do que com o lugar que eu estava. Responsável demais para viver, para ser, e simplesmente estava. Simples devir.

Mesmo assim, todo lugar que passo fica comigo, e você ficou de uma maneira especial. Eu imagino o dia que você entrará no baile em que minha vida se encontra, pedirá licença para a solidão e me puxará para uma valsa silenciosa, que não será "um pra lá, um pra cá". Ok, talvez um forró.

Você talvez não tenha me visto passar, talvez tenha. Eu não estava lá muito apresentável, meio gauché. Na verdade, eu estava como apenas mais um no meio de tantos ali no meio. Da maneira que você estava retrospectiva, poderia passar o mais belo dos cometas na sua frente que você poderia não reparar. Afinal, no que diz respeito à percepção das coisas, quase tudo é possível.

O que eu mais quero, no momento, (por mais que pareça um tanto obsessivo, mas... ah, toda adimiração vem com uma dose, pequena ou grande, de obsessão!) é poder chegar perto de você, ouvir sua voz, apenas uma palavra - porque uma voz bonita é um álcool sinfonioso -, colocar uma flor em seu cabelo, brilho nos seus olhos e uma música no seu coração. Mas isso vai ficar pra outra hora, outro dia. Talvez se houver o contato, todo o encanto se quebrará. Mas só precisaria de um sorriso seu para que tudo volte, de vez, a ser uma dolorosa inspiração, junto a ti.
sábado, 26 de abril de 2008

Grito

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Subiu degrau por degrau para o terraço daquele prédio de quinze andares. A cada degrau, alternava entre inspiração e expiração. De fato, precisava estar inspirado para fazer o que queria fazer.

Chegou ao topo e olhou para o céu. Algumas núvens roxas pinceladas, mas as estrelas brilhavam como se estivessem milhões de anos luz mais próximos. Não, provavelmente era só aquele prédio a menos de distância mesmo. Mas elas o maravilhavam, e mesmo a lua tímida e minguante no canto de sua visão não prendeu sua atenção. Provavelmente se ele estivesse apaixonado prestaria mais atenção à Mulher da Noite Prateada que a cada mês brilha mais forte, mas não naquele dia.

Enquanto caminhava a passos curtos por aquele chão acima do nível do mar em direção ao abismo, observava as luzes lá embaixo. Daqui de cima parece tudo tão bonito. Pena que lá embaixo tudo é diferente. É sufocante, claustrofóbico, os brilhos que parecem tão belos na verdade me cegam. Não existe outro caminho.

Até que chegou à borda daquele mundo que pertencia naquele momento. Olhou em volta e nenhum som realmente chegava aos seus ouvidos, apenas ecos da vida lá embaixo, como memórias que atormentavam sua mente cansada. Realmente, aquilo parecia bonito, mas era o inferno para ele. Fechou os olhos e respirou fundo.

Ao abrir, olhou para cima e soltou o maior grito que poderia sair daquele corpo. O som ecoava nas estrelas enquanto, por sua boca aberta, seus pulmões de um azul celeste saiam. Ele foi se tornando luz no mesmo momento que de suas costas asas, brancas como sua alma, explodiam suas costas em busca de liberdade. Seu coração brilhava mais vermelho que nunca, e seu grito continuava entoando a mais bela canção libertadora para ele em toda a sua vida.

Antes do grito terminar realmente, ele apagou e desapareceu. Chegou ao extremo de ter de sumir para chegar à liberdade, visto que nem em um caixão se sentiria livre. Sua existência se foi, mas eu ainda ouço os ecos de sua voz a noite, que viaja pelas estrelas, me puxando para fazer o mesmo que ele um dia. Simplesmente gritar, sumir, e ser livre.