O Livro dos Abraços - Eduardo Galeano
De vez em quando abro o arquivo do livro que baixei para ler algum pequeno trecho. O Livro dos Abraços é fácil de ler assim, de maneira descompromissada. Me parece que o autor de Veias Abertas da América Latina - um clássico da historiografia jornalística - fez o livro para ser lido dessa maneira mesmo: sem ordem, aos pouquinhos. São memórias, ou melhor, recordações, que o autor logo define no começo do livro: "Recordar, do latim re-cordis: tornar a passar pelo coração."
O Livro dos Abraços é o livro que eu gostaria de escrever. Ele é coberto de lirismo do começo ao fim, mas composto densamente também de críticas sociais e políticas, principalmente às ditaduras latinoamericanas, pois nenhum bom marxista pode se deixar levar completamente por ilusões fenomenológicas de nossos próprios sentimentos sobre o mundo, esquecendo das injustiças, repressões, torturas e lutas por uma vida melhor. Então, em pequenos trechos, Eduardo Galeano conta pequenas histórias. Interessantes são, entre os outros, os que têm o título de "dizem as paredes", em que Galeano mostra alguns escritos em muros das cidades da América Latina que visitou.
O livro do uruguaio fala de tudo - que me interesso - um pouco: mundo, liberdade, clausura, Estado, cidades da América Latina, sonhos, realidade, voz humana, amor, noite, História, ditaduras... Enfim, tudo isso de uma maneira bem fácil de ler. Minha primeira impressão foi de que esse livro era direcionado à crianças: literatura infantil. Ao continuar lendo, percebi que não. Adultos têm muito o que aprender lendo essa obra.
Pra mim, que estou andando naquela estrada reta e sem transformações, esperando pelo futuro a cada dia que passa, o livro me encantou. Me encantei com uma obra de 1991 de um autor que deveria ser mais lido pela juventude. Aliás, os grandes jornalistas, historiadores, filósofos, enfim, pensadores da década de 60 e 70 deveriam ser mais lidos pelos que se acham jovens, como foram lidos pelos que se achavam jovens dessa época. Parece que a década de 80, por causa da redemocratização, a década de 90 por causa do aumento do "conforto" para as classes médias e a década de 2000 por causa da Internet fez com que os jovens se desprendessem e não ligassem para a realidade a sua volta, se preocupando com assuntos supérfluos e virtuais.
Acho que um dia todos nós deveríamos escrever um Livro dos Abraços, principalmente quando abraçamos a nossa vida e nosso passado, seja ele turbulento e triste ou de sucessos e amores, mas todos cheios de História.
P.S.: Estou esperando chegar esse livro pela Livraria da Travessa. Sim, o comprei, e está bem barato.
O Abalo dos Muros - Frei Betto
O apocalipse ideológico no Leste europeu, jamais previsto por qualquer analista, fortaleceu a idéia de que fora do capitalismo não há salvação. Agora, a crise do sistema financeiro derruba o dogma da imaculada concepção do livre mercado como única panacéia para o bom andamento da economia.
Ainda não é o fim do capitalismo, mas talvez seja a agonia do caráter neoliberal que hipertrofiou o sistema financeiro. Acumular fortunas tornou-se mais importante que produzir bens e serviços. A bolha especulativa inflou e, súbito, estourou.
Repete-se, contudo, a velha receita: após privatizar os ganhos, o sistema socializa os prejuízos. Desmorona a cantilena do "menos Estado e mais iniciativa privada". Na hora da crise, apela-se ao Estado como bóia de salvamento na forma de US$ 700 bilhões (5% do PIB dos EUA ou o custo de todo o petróleo consumido em um ano naquele país) a serem injetados para anabolizar o sistema financeiro.
O programa Bolsa Fartura de Bush reúne quantia suficiente para erradicar a fome no mundo. Mas quem se preocupa com os pobres? Devido ao aumento dos preços dos alimentos, nos últimos dozes meses o número de famintos crônicos subiu de 854 milhões para 950 milhões, segundo Jacques Diouf, diretor-geral da FAO.
Quem pagará a fatura do Proer usamericano? A resposta é óbvia: o contribuinte. Prevê-se o desemprego imediato de 11 milhões de pessoas vinculadas ao mercado de capitais e à construção civil. Os fundos de pensão, descapitalizados, não terão como honrar os direitos de milhões de aposentados, sobretudo de quem investiu em previdência privada.
A restrição do crédito tende a inibir a produção e o consumo. Os bancos de investimentos põem as barbas de molho. Os impostos sofrerão aumentos. O mercado ficará sob regime de liberdade vigiada: vale agora o modelo chinês de controle político da economia, e não mais o controle da política pela economia, como ocorre no neoliberalismo.
Em 1967, J.K. Galbraith chamava a atenção para a crise do caráter industrial do capitalismo. Nomes como Ford, Rockefeller, Carnegie ou Guggenheim, exemplos de empreendedores, desapareciam do cenário econômico para dar lugar à ampla rede de acionistas anônimos. O valor da empresa deslocava-se do parque industrial para a Bolsa de Valores.
Na década seguinte, Daniel Bell alertaria para a íntima associação entre informação e especulação, e apontaria as contradições culturais do capitalismo: o ascetismo (= acumulação) em choque com o estímulo consumista; os valores da modernidade destronados pelo caráter iconoclasta das inovações científicas e tecnológicas; lei e ética em antagonismo quanto mais o mercado se arvora em árbitro das relações econômicas e sociais.
Se a queda do Muro de Berlim trouxe ao Leste europeu mais liberdade e menos justiça, introduzindo desigualdades gritantes, o abalo de Wall Street obriga o capitalismo a se repensar. O cassino global torna o mundo mais feliz? Óbvio que não. O fracasso do socialismo real significa vitória do capitalismo virtual (real para apenas 1/3 da humanidade)? Também não.
Não se mede o fracasso do capitalismo por suas crises financeiras, e sim pela exclusão - de acesso a bens essenciais de consumo e direitos de cidadania, como alimentação, saúde e educação -, de 2/3 da humanidade. São 4 bilhões de pessoas que, segundo a ONU, vivem entre a miséria e a pobreza, com renda diária inferior a US$ 3.
Há, sim, que buscar, com urgência, um outro mundo possível, economicamente justo, politicamente democrático e ecologicamente sustentável.
Dentro do ônibus...
Eu cometi uma besteira há um tempo atrás e acabei preso por sete anos. Hoje, estou em condicional. Me arrependo do que fiz, não deveria ter puxado o gatilho até saber o que acontecia, mas agora já aconteceu e eu pensava que Deus havia feito isso comigo para me castigar por causa de algum pecado que cometi.
Esse erro me atormenta até agora, pois não basta meu psicológico estar afetado: a sociedade não me aceita. Ninguém quer ter em sua pequena empresa um ex-presidiário. No começo desse mês mesmo fui aceito em uma loja de ferragens. Por três dias:
- Ulisses, o senhor não passou no teste. Terei que despedir você.
Não sabia da existência de nenhum teste. Logo perguntei:
- Senhor Luiz, o senhor sabe que o que está fazendo é crime, não?
- Crime por quê? Só porque estou despedindo você?
Relutei por uns instantes. Escolhia com cautela as próximas palavras, mas resolvi ser direto.
- O senhor sabe que sou ex-presidiário, não sabe?
- Sim, vi no computador.
- E é por isso que está me despedindo, correto?
- Não, não é por isso... o senhor não passou no teste...
- Pode falar a verdade, senhor Luiz. O senhor me pagou, não o farei mal.
Naquele momento, meu ex-patrão relutou também, mas escolheu, também, por ser sincero, como eu:
- Sim, foi por causa disso. Não posso colocar em risco minha empresa e os indivíduos que nela trabalham.
Desde então venho entrando em ônibus para pedir dinheiro para pagar meu aluguel - atrasado em quatro meses - e comida para meus filhos. Vou à Igreja todo domingo.
Um dia, em um desses pedidos dentro do ônibus, dois homens me deram, cada um, dois reais e um deles me deu um planfeto. Escrito estava o nome de uma Igreja, que agora não lembro. Não era a que eu participava, mas dei atenção para o que os homens falaram:
- Acredite em Deus. Ele é fiel a você, ele vai te dar dinheiro e saúde! Acredite no sangue de Jesus, pois ele tem poder. Acredite e Deus te dará sucesso, pois Ele é o único que pode dar ou tirar alguma coisa dos homens!
Eu realmente acreditava naquilo, até o momento que um rapaz - que já havia me dado algum dinheiro também -, provavelmente da metade da minha idade, se levantou e falou, baixinho para mim:
- Não... não acredite só em Deus. Acredite primeiro em você. Você é capaz de superar essa situação. O que está no passado não pode ser mudado, mas você pode mudar o presente para melhorar o futuro. E só você pode fazer isso na sua vida, não Deus. Ele não é fiel, quem é fiel é você! Acredite em si mesmo, nas suas escolhas, na sua capacidade de entender o mundo, e tudo vai melhorar.
Ele desceu do ônibus. E eu rasguei o panfleto.
Apenas uma frase
Clausura
Sofro de uma prisão nauseante de incapacidade. É como se a cada dia levassem as mais importantes características do meu ser para dentro de um mar das contingências destruidoras de sonhos, usando como armas a rotina do dia-a-dia. Colocam sobre nossa mente que precisamos dançar conforme a música, mas o ritmo é em si uma tranca para um sorriso matinal.
Se for um amor ou medo quaisquer, tanto faz, no final. De uma maneira efêmera, meus sentimentos se tornam fortes para, de um lado, me decepcionar - como é o caso do amor - e, do outro, superar - o medo. Meu maior amor eu ainda não encontrei, e meu maior medo é me tornar apático. Apático a ponto de não querer mais me livrar dessa prisão, dessa solitude, que eu mesmo construi ao meu redor. A ponto de não abrir os olhos e viver uma vida medíocre.
É preciso buscar a transcendência, sempre. É preciso libertar-se, a cada dia, a cada minuto, das grades que constroem e que nós construímos para nós mesmos. E a cada libertação, novos grilhões, pois temos que ter responsabilidade sobre nossos atos e escolhas. E é aí que os sentimentos se diferem: o verdadeiro amor não é aquele que cria medo ao objeto amado ou por ele em si, e o verdadeiro medo é relacionado ao amor que você tem a certos aspectos da sua vida - seja uma causa, seja um afeto. Os dois se unem pela palavra prudência.
E talvez seja por essa prudência que me tranco em paredes ontológicas. Não quero sufocar a mim mesmo vivendo livremente e conhecendo o mundo como uma abelha descobre o que acontece quando perde seu ferrão. Preparo-me, então disputo o mundo. Destruo as fronteiras, como um casulo e como um desbravador. Ser alguém novo, o tempo todo. Essa é a nossa condição como seres livres.
Balada do Amor Clichê
Ele tinha o andar torto de tanto se embreagar
Se encontraram no vagão do trem a se movimentar
Ela sorriu pra ele e o rapaz veio a se envermelhar...
Então começou mais uma linda história de amor
Chocolates e lençóis mesmo na ausência do calor
Algumas brigas resolvidas com um coração de flor
Cada um dava a si seu respectivo valor...
Veio então o dia que ela queria se libertar
As palavras em francês do ébrio não iriam adiantar
As juras de amor iam novamente se quebrar
As brigas já não faziam um ao outro se agüentar...
O sorriso bobo se tornou um olhar de fúria
O andar torto voltou a pertencer à boemia
E os dois passaram a taxar seu amor de infâmia
Separaram-se mas guardaram aquela velha chama...
No trem se encontraram depois novamente
O apaixonado bêbado guardava seu amor latente
E ela o amara de um modo um tanto diferente
"Aquele sentimento que explode no coração da gente..."
E ali mesmo começaram, então, a se amar
Com toques apaixonados vieram a se beijar
A população em volta começou a reclamar
E o maquinista passou a se preocupar...
O trem então perdeu a sua direção
Descarrilhou e caiu em alto-mar
E a morte encontrou os dois amantes
Sorriso torto e andar bobo na eternidade.
Blablabla, clichê. Blablabla, rimas pobres. Blablabla, forma tosca. Aham. Tudo pensado.
Anacronia
Jean-Paul Sartre (A Náusea)
Esse sentimento me deixa sem chão. É extremamente estranho sentir-se apaixonado por memórias de algo que não chegou a ser uma paixão em si. Isso só me faz pensar que as lembranças estão sempre relacionadas ao que pensamos e sentimos hoje. Mas é estranho também o sorriso dela estar tão bem pintado e colorido em minha mente, quase como um Monet. Os olhos expressivos também são importantes, fractando-se a cada sorriso.
Mas isso não é nada pragmático. Como assim, se apaixonar por uma memória? Por um sentimento anacrônico? Pior, um sentimento que pode ser também crônico. Sinto como se não pudesse mais viver sem ele, mas sei que provavelmente amanhã acordarei e nem lembrarei do que estou sentindo no momento.
Tudo que eu queria agora era voltar no tempo e reviver o que acontecera, talvez mais intensamente, com o que sinto agora. Não é propriamente um arrependimento, só uma maneira diferente de ver o que aconteceu. Sei, claro, que é impossível, e isso revira meu estômago e mente de uma maneira inexplicável e que nunca senti antes, desta maneira.
O que eu realmente sei é que eu gostaria que ela tivesse me amado. Gostaria que eu fosse a última imagem em sua mente antes de dormir e a primeira depois de acordar, naquela época. Hoje já não sei. Pensava que minha paz se encontrava em minha solitude, e nesse exato momento ela está abalada.
Agora o Sol já está posto e incontáveis estrelas se põem no céu. Com o Sol, se foi a anacronia? Não sei. Só vendo o sorriso dela, hoje, meus sentimentos se decedirão: sincronizar a paixão ou deixá-la na memória. Eis a questão.
